O amor presente em um olhar

Outro dia eu ouvi: “o amor presente em um olhar”. Em geral, a gente associa (eu, inclusive) o amor ao abraço. Ao afeto entre cônjuges. Daquelas relações longas e duradouras. Ahhh… como os velhinho se amam… Estão há quantos tantos anos juntos?

Mas esse amor, presente em um olhar, pode ser um amor de dez segundos. Pode ser uma troca de olhar amoroso, de afeto. Pode ser um amor travestido de um “obrigada”.

Fiquei pensando em algumas profissões em que o amor está presente no olhar. (Vou tratar as profissões no feminino, porque acho que grande parte das mulheres, independente da escolha matenidade, nascem providas de amor). Talvez a médica, a enfermeira sejam as profissões óbvias de amor no olhar. Elas olham pacientes todos os dias, cuidam deles. Com técnica, mas também com amor.

Talvez a assistente social. A psicóloga. Aquelas que acolhem, escutam. A fisioterapeuta, que ajuda a recomeçar os passos possíveis.

Mas quem pensa em “amor presente no olhar” da merendeira de uma escola? Que alimenta crianças, adolescentes, professores. Muitas vezes, ela está do lado de lá da parede. Ou, nos serve no prato, aquela fileira de gente, cabisbaixa, atenta pra não cair nada pra fora.

Muitas vezes, quando há uma troca de olhar de “que delícia essa sua comida, obrigada”, há amor nesse olhar. Pode ser gratidão? Pode. Mas há amor. Reconhecimento do outro.

E fiquei pensando, também, nas estátuas vivas. Ou nos músicos de violino. Eles eram tão presentes nas ruas do Centro do Rio que nunca mais os vi. As estátuas vivas ficam ali, em cima de uma caixote, imóveis. Por horas. Fantasiadas, pintadas, cobrindo um corpo que não se move. Mas que sente. São seres humanas. Estátuas, porém vivas.

E é na troca de olhares com os passantes, transeuntes, outros-seres-humanos que a vida acontece. Que a vida se move. Que, num olhar sorridente de uma para outra (já vi muitas estátuas sorrirem com os olhares) é que acontece o amor.

E, os músicos de violino (falei do violino porque é o instrumento que me emociona)? Eles tocam. Em silêncio. Olhos fechados ou abertos. Balançam a cabeça afirmativamente e afetivamente quando alguém pára para ouvi-los. Enchem os nossos dias silenciosos de som que emociona.

Penso, também, que é neste reconhecimento de olhar-amor que acontece a vida. Perceber, no outro, a possibilidade da troca de afeto, do amor, aquece o coração de qualquer um. Aquece o meu.

Porque o amor não precisa de um dia, um ano, dez anos, quarenta anos pra existir. Se acontecer? Maravilhoso. Mas o amor pode durar os dez segundos possíveis parados ouvindo o músico. Ou vendo a ser-humana-estátua-viva.

É na troca de olhar, ainda que fugaz, que acontece a possibilidade do amor.

Que a gente possa olhar com amor por quem nos passa. Que a gente possa receber o amor por quem passa por nós. Que a gente possa se permitir esta troca. 10 segundos de amor pode ser muito tempo para uma vida inteira.

O afeto manifestado

Qual a sua forma de manifestar afeto? Qual a forma correta? Existe forma correta de manifestar afeto?

Um manifesta afeto dizendo “eu te amo“. Outro manifesta dizendo “eu me preocupo com você“. Já outro manifesta trazendo, da rua, uma flor. Ou fazendo uma comida favorita, que nem sempre precisa ser a própria comida, mas a comida do outro.

A forma de manifestar afeto – para além do livro das linguagens do amor – é bastante pessoal e, acredito, ilimitada. E sem qualquer tipo de julgamentos.

Não existe a forma correta ou incorreta de manifestar afeto a alguém.

Não existe a forma correta ou incorreta de manifestar o afeto a alguém. Ouvi dizer que o amor é o caminho, e, sendo um caminho, cada um pode ter o seu. Pode ser uma reta. Uma curva. Uma ladeira. Pode ser um caminho florido. Ou um caminho cheio de pedregulhos. Tudo é o caminho. A forma de chegar a algum lugar. O amor e o afeto como forma de chegar a um lugar. A si mesmo. Ao outro.

E só o afeto é bem amplo. Amor é afeto. Raiva também. Pode ser o afeto de mãe. De filho. De irmão. De parceiro ou parceira. Pode ser um amor monogâmico. Ou poliamor. Pode ser um amor hétero. Ou LGBTQIA+.

Agora, o afeto-amor que a gente precisa descobrir, e acessar, e saber qual é o correto é o auto. Aquele, o amor próprio.

E aí não há outro que nos ensine “gosto de ser amada assim ou assado“. Porque o outro que nos ensina sobre o auto afeto é o outro que mora em nós. Pode ser o outro-mãe-interna, que nos ensinou sobre amor, cantando. Pode ser o outro-pai-interno, que nos ensinou da forma possível que lhe é posível. Pode ser o outro-amigos, o outro-parceira. Mas, sobretudo, é este outro que mora dentro de nós é que nos diz como devemos nos amar, nos afetar. Por nós mesmos e pelas coisas do mundo. O caminho? Ele também mora do lado de dentro.

E, a partir desse afeto – que é também aprendido e apreendido – de dentro, de mim por mim mesma, posso manifestar o afeto pelo outro. A grande chave é: você já perguntou ou tentou descobrir como o outro gosta de ser amado? Como o outro gosta de receber seus afetos? Como ele se afeta?

Eu, por exemplo, não gosto de massagem. Mas uma coçadinha nas costas é sinal de muito aconchego, pra mim.

Tem gente que pode querer o afeto em formato da comida preferida. Mas pode ter gente que só um olhar e um balbucio de “te amo” num dia qualquer seja mais significativo. Tem gente que gosta de abraço. Tem gente que gosta de um “<3” no whatsapp. 

O afeto? Não tem certo e errado. Tem o próprio e o manifestado. Se dê. Pergunte. Descubra. Ame. Sinta. Você. E a outra. O outro.

O sentimento do não vivido

Nomear sentimentos nem sempre é uma coisa trivial, fácil e simples. Pra isso, é preciso acessar caminhos internos que a gente não conhece ainda. São caminhos obscuros, sombrios, desconhecidos. É dar sentido e nome a algo que a gente sente. E não é pela racionalidade que isso acontece. 

Parte do processo de terapia é… “qual o seu sentimento”?

O sentimento pode ter relação com fatos, coisas, momentos vividos, pessoas, situações, lembranças. Sobretudo, por nós mesmos. O sentimento tem relação com o passado. Lembrando daquela cena, contando aquela situação em terapia… qual o sentimento? Raiva. Medo. Tristeza. Angústia. Alegria. Paciência. Amor. 

Não existem sentimentos bons e ruins. Não é ruim sentir raiva. E nem bom sentir amor. Não é algo cartesiano. Não há (não deveria haver) julgamento sobre o que o outro sente. Sobretudo em terapia. 

Quando o paciente diz: “não sei se está certo”, eu sempre digo que está certo. Se é dele, está certo. Quem somos nós – psicoterapeutas – para dizer o que é o certo? O paciente, dando nome ao sentimento, é aquele nome mesmo. É com aquilo que iremos trabalhar. É o que vem, é o nome que ele dá, sobre o que ele sente.

E quando temos um sentimento de algo não vivido? Não é um momento real. Uma vivência. Uma experiência. Uma lembrança. É algo que não viveu. Algo que não aconteceu. Estes sentimentos são o que pode chamar de “sentimento não vivido”. Ouvi isso outro dia e achei tão lindo e poético que resolvi dividir aqui com vocês: “o sentimento não vivido”.

Qual o sentimento que vocês têm por algo que não viveram? Por lembranças de coisas que não existiram? Qual o olhar sob esta perspectiva do não-existir? E o sentimento a partir disso?

Qual o sentimento que não viveram? O sentimento que não sentiram? E que agora, olhando pra lá pra trás, pode, enfim, sentir o que não sentiu. 

Bonito, não é? Pode ser dolorido, e ainda mais desconhecido, mas é, em terapia, que podemos encontrar os caminhos possíveis para que, independente do que a gente tenha vivido, que não deixemos, nunca, de sentir.

A alquimia no processo analítico

Na clínica junguiana, paciente e terapeuta são como duas substâncias alquímicas, que reagem entre si. Acontece uma reação (alquímica) entre um e outro e, a partir de então, acontece a transformação do processo. O paciente é transformado na análise, mas o terapeuta também o é.

A transformação que acontece, no setting terapêutico, não é apenas individual (do paciente), mas coletiva (do terapeuta). E, esta transformação acontece também em nível “mais coletivo ainda“, já que a transformação reflete também na vida fora do setting. É aquela analogia que vemos da lagarta e da borboleta. “O que aconteceu com você, que era lagarta e agora é uma borboleta?” “Estou em terapia“, diria a borboleta.

Esse processo de tranformação pode vir de uma consciência de um lado sombrio, inconsciente. Pode ser de um insight. Pode ser de um olhar para si (do paciente para si mesmo). Pode ser uma interpretação do analista que faz o paciente pensar, sentir, ampliar. Pode ser um sonho que desnuda algum aspecto que ainda não estava iluminado.

E, assim como paciente, terapeuta sai também transformado. O terapeuta também é tocado por aquele processo, por aquele outro ser. Não só pela história, como pelo olhar do outro, pelo trabalho coletivo, em conjunto. E, só pode ser analista, aquele que está em contato com a sua própria sombra, com a sua própria análise. Um olhar para o paciente, e um olhar para a sua própria ferida.

Como Jung fala que, ao “tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana“. São duas (ou muitas) almas humanas que são tocadas mutua e coletivamente e que a transformação, a partir do toque, acontece.

O setting, portanto, mesmo online, se torna um espaço sagrado de transformação mútua. Um lugar alquímico, um caldeirão em que os elementos se misturam, se condensam, e se transformam em um material novo.

A transformação também se reflete coletivamente, pois paciente e terapeuta, fora do setting, tornam-se outros; estão, literalmente, transformados. Nas relações, na sociedade, na vida afetiva, profissionalmente, a transformação aparece, do paciente e do terapeuta, que são contaminados – um pelo e para o outro – a partir desta aliança terapêutica. O que acontece do lado de dentro, do setting e de si mesmo, reflete, também, do lado de fora.

A minha gratidão pessoal a cada uma e a cada um que me (se) confidencia o seu mundo e que, a partir disso, transforma também o meu.

O tempo e a luz

De um lado, um relógio de pulso, daqueles que precisa dar corda. Do outro lado, um homem com manias repetitivas. Dentre as manias, está a de colecionar coisas; ou a de deixar os papéis bem lisinhos. Aqueles que envolvem presentes ou ovos de páscoa e que ficam naturalmente amassados. O prazer é desamassar tudo. Quase como consertar os amassos, sem rusgas. Coisas tão simples dão, a este homem, muito prazer. 

O relógio fica no pulso deste homem. Mas, enquanto está em casa, o relógio está nas mãos, entrelaçado. Enquanto vê a notícia na TV, também de forma repetitiva, está ele dando corda no relógio, balançando-o ininterruptamente. Tal qual uma contagem mecânica do tempo. O tec-tec-tec quase inaudível, do balançar do relógio no braço da poltrona, dá a ele aquele prazer do desamassar. Aquele prazer quase inconsciente de controlar o tempo. De se saber dono do tempo. Do seu e do tec-tec da mecânica do relógio. 

É capaz de comentar a notícia na TV, de dialogar com a esposa, de vociferar contra ou a favor de alguém que aparece ali, na tela em frente, sem cessar o tec-tec inaudível e repetitivo. O tempo? Está nas suas mãos. Na repetição infinita daquele pulsar. Dentro e fora o tempo anda. Dentro do relógio. Dentro de si mesmo. E no ritmado balançar de fora.

Este barulhinho e este movimento já fazem parte da dinâmica daquela família. Daquelas relações. 

Mas o tempo correu para esta família. Mais rápido do que se previa. Correu pela idade. Correu pelos cabelos brancos. Correu pelas limitações físicas. Correu até pela lentidão, veja só. Aos muitos anos apareceu a doença. E, com ela, a fragilidade. O tempo, agora, deixou de ter o tec-tec e, com essa correria toda, se tornou mais lento. 

Os passos mais lentos. A fala? Mais lenta. O olhar, também mais lento. A alimentação? Mais lenta. Tudo mais lento. Menos a relação. O relógio e o seu tec-tec? Não mais lento. Mas no seu tempo. Agora, parado, na mesinha ao lado. 

O objeto de mania foi substituído, agora. Deixou de ser um relógio que mede o tempo, para ser uma mini-lanterna, no formato de uma caneta, que ilumina o que está escuro. “Tem uma luz potente essa lanterninha”, diz ele. A lanterninha fica no bolso, apagada. Quando precisa de luz, basta um clique e lá estará iluminado. 

Ou seja: o tempo não é mais importante agora. Pode ser lento. A importância, então, ficou em iluminar a escuridão. A dar luz ao final do túnel. A ter uma luz de esperança neste caminho sombrio que se vive. 

A luz, sem o plec dos seus dedos, no entanto, permanece apagada. Quando precisa, ilumina o que caiu no chão. Ilumina o que se perdeu. Ilumina para mostrar, aos outros, como ele pode, ainda que na doença e na lentidão, dar luz aos lugares. Ilumina como a esperançar o caminho que segue para a frente. 

Porque é de luz e de sombra que vivemos. De caminhos escuros, sombrios, mas também de iluminar, ainda que com a lanterninha, por onde ainda teremos que caminhar. 

A amplitude da terapia

Em tempos de pandemia, o consultório pode ser – literalmente – qualquer lugar. É no lugar confortável e acolhedor para o paciente. Ou em que ele sinta que tenha privacidade e espaço para poder falar do que precisa ser dito na terapia.

Quando iniciamos os atendimentos, o cenário era sempre de paredes escondidas. Uma vez, foi um quartinho em casa, escondido – pois, em tempos de todo mundo em casa – faltava silêncio e privacidade. E, no momento mais emblemático, foi quando tivemos sessão em que estava dentro do closet. Sentou no chão dentro do armário e fechou a porta. E ali era o nosso lugar de terapia.

Três meses depois do início da nossa terapia, quando abriu a câmera, o cenário era outro

– Trouxe a gente pra cá, e o cenário não é protetor de tela.

De novo, sentou no chão. Mas, dessa vez, o chão era grama. E as paredes era o Pão de Açucar, o mar, o céu, com um solzão, cheio de nuvens. E compartilhou o que via comigo. Ao mesmo tempo que ali era um local acolhedor e privado, era também um lugar amplo, natural, não-escondido.

– Que delícia estava o nosso consultório hoje.

– O consultório não é “nosso”. É seu. Eu olho para meus livros de sempre atrás de mim:

– Mas é nosso sim. É o nosso-espaço-terapêutico. E é você que está nele. Hoje, as paredes estão mais coloridas, amplas.

– Vou trazer sempre as nossas sessões para cá -, disse, antes de encerrarmos.

Se o processo de terapia amplia os horizontes, e expande a consciência, este foi o exemplo mais real e concreto que pude evidenciar. O armário de antes ficou pequeno; se expandiu, e não cabia mais para os nossos atendimentos.
Agora, o nosso consultório – e o processo terapêutico – estava amplo.

Este texto só foi publicado após autorização.

Quantos somos?

Este é um texto em grupo. Comecei a pós em Psicologia Junguiana, este ano, de 2020. Deveria ser presencial. Mas está sendo online, do jeito que dá.

Já teve erros na plataforma. E, no primeiro dia de aula, um colega decidiu criar o grupo do whatsapp da turma. Com professores incluídos ali. Seria, então, o “grupo oficial”, disseram alguns. Com todo o peso que o termo oficial carrega. Quase nos disseram: “aqui não pode conversar”, já que, sendo oficial, era um grupo para comunicados. E não relacionamentos. Mesmo sendo todos nós futuros junguianos. 

E aí tivemos um problema no grupo. Do whatsapp. De vez em quando tinha alguma coisa ali. Brigaram por causa de livros. Outra vez, sobre machismo. Mas quando aconteceu a briga sobre “não podemos agradecer” em que foi falado sobre gratidão é que não podíamos agradecer uns aos outros. Porque lotava o grupo com mais de 30 “obrigada”. 

Algumas pessoas sentiram raiva. Outras, sentiram razão. Outras, mandaram memes. E alguns de nós criamos outro grupo, chamado “O Outro”. Era, literalmente, o outro grupo. Em que podia tudo. Gratidão, bate-papo, tudo. Sobretudo, podia relacionar-se. Consigo. Com o outro. Conhecer as pessoas. E não apenas dividir uma sala de aula e uma pós graduação.

E a relação mesmo começou com ela, que se propôs, antes da aula, a fazermos o trabalho do professor juntas. Era um trabalho praquela aula. Não o trabalho da disciplina. Fizemos juntas, sozinhas, com câmera ligada. 

E esta mesma me chamou pra estudar. Vamos ler juntas o livro?, ela disse. Vamos! E começamos só nós. Éramos duas. Eu lia. Ela acompanhava. Câmera ligada. Pausa. Diálogo. E com isso, a gente foi se conhecendo.

Na aula seguinte, mencionamos em aula, na frente da turma, que estávamos estudando juntas. Era para tirar uma dúvida com o professor. Ela, então, quis fazer parte conosco. E aí, passamos a ser sempre três. Eu lia. Elas acompanhavam. Toda semana, no mesmo horário. 

Abrimos um terceiro grupo de whatsapp, nós três. Chamado “Estudos-nome-do-livro-do-Jung”. E aos poucos, foram chegando mais e mais. E os estudos, toda terça-feira às 16h30, se estenderam para quinta. E às vezes às sextas.

Hoje, somos doze. Os doze apóstolos. Os doze signos do Zodíaco. Os doze signos. Os doze meses do ano. Como ele bem disse. Os doze que se relacionam. E riem, e se emocionam. E se conhecem.

Hoje, em especial, uma voltou pro seleto grupo. E, com isso, somos treze. Mas não é doze mais uma. São treze. Inteiros. 

Dentro de nós, tem aquela que tem os netos. Tem aquela que faz as árvores de natais mais belas e que tem a voz doce e conta sobre a árvore da sua família. E tem aquele anão de jardim, como ela diz, e na verdade é um grande lenhador. Tem aquela que canta. E mesmo quando vem estar conosco lendo, canta. Tem a que fala de maternidade. Tem aquela que abre as cartas ao final dos estudos e nos abrilhanta com os seus oráculos, e deusas. Tem aquele que desaparece e quando vem, está cabeludo. 

Tem as psicólogas. As arteterapeutas. Tem a assistente social. E a médica. E a professora (de francês!). E aquela e aquele, que, independente da profissão que segue, está ali. Lendo, estudando, cantando. 

Tem a bruxa. Os umbandistas. A que não tem religião. Aquele que quer conhecer (“me leva lá?”). Tem aquele que fala dos seus Orixás. E as filhas de Iansã.

Tem a que tem netos. E as que tem filhos, grandes ou pequenos. E quase todas e todos têm os gatos, que passeiam, como iam pela Dra. Nise lá atrás, agora, pelas câmeras.

Tem aqueles e aquelas que vêm pouco. Quando dá. Nem sempre dá. E o grupo, do whatsapp, que era o grupo do grupo de estudos, e virou o grupo dos doze-treze. Não só pra falar de estudos. Mas para falar de nós. De cada um. 

E, falando de nós, a gente podia até não-estudar. Teve chope virtual no final da aula. Teve o dia que não queríamos chope e teve café. Com cocada e pão de queijo. Cada uma das suas casas. 

E hoje a gente ri. Se emociona. Pode ser grato. Dizer “obrigada” quantas vezes forem. E rimos. E brincamos. E choramos juntas. E compartilhamos nossos trabalhos, nossas vidas, nossas emoções, nossas religiões, nossas forças, fraquezas, fragilidades. Parece até terapia: é um lugar seguro. É um lugar em que não tem julgamento. Só emoção e troca.  

Os treze, hoje, tornaram-se bons amigos. O que antes, começou com duas amigas estudando, hoje somos treze que não só estudam, mas vivem, cada um na sua subjetividade, indivíduo. 

No grupo, tem sombra, ter persona, tem interpretação, tem individuação. E também tem sonho, mito, self, ego, anima e animus, energia (ah, a energia psíquica!). E tem muito, muito amor uns pelos outros. Cada um dos 13 por cada um dos 13 e por todos os treze. 

E, pensando bem, somos 14. Porque, simbolicamente, temos o Jung no centro de nós.

Quando o inconsciente pede…

Uma das coisas mais importantes dos seres humanos é o afeto. O quanto o afeto nos move, nos leva e nos traz. Não acredito em afetos positivos ou negativos. Tudo o que nos afeta, nos toca, nos move é igualmente importante.

Seja uma ira, uma raiva, um carinho, um afago, a empatia, uma emoção, qualquer que ela seja. Mais importante do que reprimir um afeto errado, é importante senti-lo. Não perdendo, claro, o respeito pelo outro, o cuidado e a empatia das relações.

Em épocas de pandemia, em que o contato físico está cada vez mais escasso, os afetos têm nos aflorado de outras formas (a mim também!). A gente conhece pessoas pela virtualidade. Algumas, nunca nos tocamos sequer.

E essa virtualidade, que, por um lado nos protege, também permite a ira, a raiva, a belicosidade, já que há a tela, a câmera, a distância, o wifi. “Ih, caiu”. Ficou offline e foi.

A distância, no entanto, não oculta nossos inconscientes, nossos atos falhos. Assim como a gente percebe a ira em uma pontuação, em uma escrita, em um olhar na câmera; a gente também percebe os atos falhos, e o “ops, desculpa, foi sem querer”.

E foi numa dessas situações que foi bem perceptível. A belicosidade e o desejo por afeto. Muitas vezes, quem grita é quem esconde um desejo de afeto sincero pelo outro.

E, durante um tempo, ouvimos gritos. Ouvimos “não”. Ouvimos “não agradeçam”. Sejam “frios”. Pois é assim que as relações para algumas pessoas são: burocráticas. Sem afeto. Na virtualidade, sem afeto? Não sei. Acho que ao contrário. Apesar da virtualidade, muito afeto!

E deste mesmo lugar em que vieram os gritos, vimos um ato falho. Vimos uma desculpa pelo erro descontextualizado. Só que o descontexto já ficou evidente. E aí veio uma enxurrada de afeto. Os agredidos viraram os olhos e entregaram afetos sinceros. E o burocratês se abriu para receber. E poder dizer “obrigada” onde antes existia frieza.

E aí o que aprendemos é que nosso, inconsciente grita por afeto. Mesmo quando há uma “capa” de belicosidade, há, também, um lado de dentro, bem no fundinho, de um desejo de amor. E é nos “sem querer” que esse desejo aparece.

E, aqui entre nós? Que maravilhoso por isso! Que, apesar da dor, da distância, do que há de bélico em nós, nosso inconsciente possa gritar ou sussurrar por amor.

Qual o lugar do atendimento psicológico?

Antes da pandemia, o lugar tinha endereço certo: o consultório. O número do prédio. O número da sala. Aquele sofá de sempre. Com a manta. O mais confortável possível para o paciente.

E aí…, pandemia! Isolamento social! Cada um em suas casas.

O consultório, está lá. Fechado. Vazio. Sem pacientes no sofá.

Os atendimentos, no entanto, não pararam. Pode ser via whatsapp vídeo chamada, via Skype, via Google Meet. A ferramenta, é aquela em que o paciente tem no celular ou computador. E que a gente possa ver-e-ouvir um ao outro.

Mas o local, aquele sofá acolhedor, agora, pode ser qualquer lugar. Literalmente. Já foi carro; já foi play do prédio; já foi no quartinho dos fundos, em casa. Já teve casos de ser na rua, na praça, sentados em um banco na rua.

Com isso tudo, a gente aprende que o lugar acolhedor não é o sofá. Ou a manta. Ou o endereço onde a gente recebe.

Mas o lugar acolhedor é o nosso olhar. A nossa escuta. É quando a gente “dá o play” na sessão e estamos ali, inteiros. Prontos para ouvir. Para acolher, ainda que sem braços, que seja no silêncio, um choro, uma angústia, uma questão mais difícil ou dolorida.

Hoje, atendo pacientes online, que chegaram com a pandemia (a gente não tinha atendimento antes). E que, apesar do distanciamento, o atendimento psicoterapêutico não tem nada distante. E menos ainda frio.

É com o isolamento social que a gente aprende que o lugar e o setting não é um espaço físico. Mas que o lugar é a nossa escuta. A nossa fala. O lugar (qualquer que seja ele) em que o paciente possa (não) falar e ser acolhido, ser dado sentido, caminhos, escutas e partilhas.

Gratidão a cada um que passou pelo “consultório”.

Gratidão aos colegas do grupo do whatsapp, que proporcionaram esta reflexão e possibilidade de texto.

Os óculos do outro

Outro dia eu estava saindo pra almoçar, sozinha.

A saída do prédio onde trabalho é bem ampla e tinha um homem olhando a rua e as pessoas passando. Mais alto que eu, ele usava óculos, cujas lentes eram largas, para os lados. Essas lentes pareciam armazenar os gestos alheios.

Por um segundo, eu também consegui olhar pelos óculos dele. Em uma fração minúscula de tempo tive uma mini perspectiva do que e como ele enxerga. Para mim, pareceu um pouco embaçado. Desfocado. Esfumaçava.

E fiquei andando e vindo pro almoço pensando.

Como seria a nossa perspectiva de olhar se a gente colocasse a lente dos outros? Se vestíssemos o olhar de alguém?

Claro. É algo que não será possível. Muito utópico e viajante.
Além de tudo, seria perturbador conseguir adentrar um local natural de defesa do ser humano, o pensamento.

O que o senso comum diz sobre empatia se parece um pouco com isso. Se colocar no lugar do outro. Sentir como o outro sente. Ser empático com e por.

Mas vestir os olhos já é mais complexo. É ter uma perspectiva não-minha. A via alternativa para recusar a vista é o desespero de se cegar como fez Édipo ao apreender a sua própria verdade, que tomou consciência real de que seus atos, voluntários ou involuntários, afetavam frontalmente a existência do outro. Somos mais interligados do que pensamos.

É fácil ter a perspectiva do cônjuge. Do filho. A gente até gostaria um pouco de colocar os olhos do filho na gente. É o igual. É o pretensamente criado à nossa imagem e semelhança. Esses seriam os olhos de um lugar seguro.

E o que dizer de vestir os olhos do diferente? Do malfeitor? Do assassino? Do pedófilo? Ou do depressivo? Como seria a experiência de despovoar a zona de conforto e tentar sangrar por novas experiências?

Chama um pouco a minha atenção às pessoas que usam óculos escuros. Eles não têm colírio. Penso nisso como uma blindagem, um insulfilm para carros. É a colocação dos próprios olhos no terreno do egoísmo. É privar do outro a chance de dividir o olhar de mundo.