Textos

A alquimia no processo analítico

Na clínica junguiana, paciente e terapeuta são como duas substâncias alquímicas, que reagem entre si. Acontece uma reação (alquímica) entre um e outro e, a partir de então, acontece a transformação do processo. O paciente é transformado na análise, mas o terapeuta também o é.

A transformação que acontece, no setting terapêutico, não é apenas individual (do paciente), mas coletiva (do terapeuta). E, esta transformação acontece também em nível “mais coletivo ainda“, já que a transformação reflete também na vida fora do setting. É aquela analogia que vemos da lagarta e da borboleta. “O que aconteceu com você, que era lagarta e agora é uma borboleta?” “Estou em terapia“, diria a borboleta.

Esse processo de tranformação pode vir de uma consciência de um lado sombrio, inconsciente. Pode ser de um insight. Pode ser de um olhar para si (do paciente para si mesmo). Pode ser uma interpretação do analista que faz o paciente pensar, sentir, ampliar. Pode ser um sonho que desnuda algum aspecto que ainda não estava iluminado.

E, assim como paciente, terapeuta sai também transformado. O terapeuta também é tocado por aquele processo, por aquele outro ser. Não só pela história, como pelo olhar do outro, pelo trabalho coletivo, em conjunto. E, só pode ser analista, aquele que está em contato com a sua própria sombra, com a sua própria análise. Um olhar para o paciente, e um olhar para a sua própria ferida.

Como Jung fala que, ao “tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana“. São duas (ou muitas) almas humanas que são tocadas mutua e coletivamente e que a transformação, a partir do toque, acontece.

O setting, portanto, mesmo online, se torna um espaço sagrado de transformação mútua. Um lugar alquímico, um caldeirão em que os elementos se misturam, se condensam, e se transformam em um material novo.

A transformação também se reflete coletivamente, pois paciente e terapeuta, fora do setting, tornam-se outros; estão, literalmente, transformados. Nas relações, na sociedade, na vida afetiva, profissionalmente, a transformação aparece, do paciente e do terapeuta, que são contaminados – um pelo e para o outro – a partir desta aliança terapêutica. O que acontece do lado de dentro, do setting e de si mesmo, reflete, também, do lado de fora.

A minha gratidão pessoal a cada uma e a cada um que me (se) confidencia o seu mundo e que, a partir disso, transforma também o meu.

O tempo e a luz

De um lado, um relógio de pulso, daqueles que precisa dar corda. Do outro lado, um homem com manias repetitivas. Dentre as manias, está a de colecionar coisas; ou a de deixar os papéis bem lisinhos. Aqueles que envolvem presentes ou ovos de páscoa e que ficam naturalmente amassados. O prazer é desamassar tudo. Quase como consertar os amassos, sem rusgas. Coisas tão simples dão, a este homem, muito prazer. 

O relógio fica no pulso deste homem. Mas, enquanto está em casa, o relógio está nas mãos, entrelaçado. Enquanto vê a notícia na TV, também de forma repetitiva, está ele dando corda no relógio, balançando-o ininterruptamente. Tal qual uma contagem mecânica do tempo. O tec-tec-tec quase inaudível, do balançar do relógio no braço da poltrona, dá a ele aquele prazer do desamassar. Aquele prazer quase inconsciente de controlar o tempo. De se saber dono do tempo. Do seu e do tec-tec da mecânica do relógio. 

É capaz de comentar a notícia na TV, de dialogar com a esposa, de vociferar contra ou a favor de alguém que aparece ali, na tela em frente, sem cessar o tec-tec inaudível e repetitivo. O tempo? Está nas suas mãos. Na repetição infinita daquele pulsar. Dentro e fora o tempo anda. Dentro do relógio. Dentro de si mesmo. E no ritmado balançar de fora.

Este barulhinho e este movimento já fazem parte da dinâmica daquela família. Daquelas relações. 

Mas o tempo correu para esta família. Mais rápido do que se previa. Correu pela idade. Correu pelos cabelos brancos. Correu pelas limitações físicas. Correu até pela lentidão, veja só. Aos muitos anos apareceu a doença. E, com ela, a fragilidade. O tempo, agora, deixou de ter o tec-tec e, com essa correria toda, se tornou mais lento. 

Os passos mais lentos. A fala? Mais lenta. O olhar, também mais lento. A alimentação? Mais lenta. Tudo mais lento. Menos a relação. O relógio e o seu tec-tec? Não mais lento. Mas no seu tempo. Agora, parado, na mesinha ao lado. 

O objeto de mania foi substituído, agora. Deixou de ser um relógio que mede o tempo, para ser uma mini-lanterna, no formato de uma caneta, que ilumina o que está escuro. “Tem uma luz potente essa lanterninha”, diz ele. A lanterninha fica no bolso, apagada. Quando precisa de luz, basta um clique e lá estará iluminado. 

Ou seja: o tempo não é mais importante agora. Pode ser lento. A importância, então, ficou em iluminar a escuridão. A dar luz ao final do túnel. A ter uma luz de esperança neste caminho sombrio que se vive. 

A luz, sem o plec dos seus dedos, no entanto, permanece apagada. Quando precisa, ilumina o que caiu no chão. Ilumina o que se perdeu. Ilumina para mostrar, aos outros, como ele pode, ainda que na doença e na lentidão, dar luz aos lugares. Ilumina como a esperançar o caminho que segue para a frente. 

Porque é de luz e de sombra que vivemos. De caminhos escuros, sombrios, mas também de iluminar, ainda que com a lanterninha, por onde ainda teremos que caminhar. 

A amplitude da terapia

Em tempos de pandemia, o consultório pode ser – literalmente – qualquer lugar. É no lugar confortável e acolhedor para o paciente. Ou em que ele sinta que tenha privacidade e espaço para poder falar do que precisa ser dito na terapia.

Quando iniciamos os atendimentos, o cenário era sempre de paredes escondidas. Uma vez, foi um quartinho em casa, escondido – pois, em tempos de todo mundo em casa – faltava silêncio e privacidade. E, no momento mais emblemático, foi quando tivemos sessão em que estava dentro do closet. Sentou no chão dentro do armário e fechou a porta. E ali era o nosso lugar de terapia.

Três meses depois do início da nossa terapia, quando abriu a câmera, o cenário era outro

– Trouxe a gente pra cá, e o cenário não é protetor de tela.

De novo, sentou no chão. Mas, dessa vez, o chão era grama. E as paredes era o Pão de Açucar, o mar, o céu, com um solzão, cheio de nuvens. E compartilhou o que via comigo. Ao mesmo tempo que ali era um local acolhedor e privado, era também um lugar amplo, natural, não-escondido.

– Que delícia estava o nosso consultório hoje.

– O consultório não é “nosso”. É seu. Eu olho para meus livros de sempre atrás de mim:

– Mas é nosso sim. É o nosso-espaço-terapêutico. E é você que está nele. Hoje, as paredes estão mais coloridas, amplas.

– Vou trazer sempre as nossas sessões para cá -, disse, antes de encerrarmos.

Se o processo de terapia amplia os horizontes, e expande a consciência, este foi o exemplo mais real e concreto que pude evidenciar. O armário de antes ficou pequeno; se expandiu, e não cabia mais para os nossos atendimentos.
Agora, o nosso consultório – e o processo terapêutico – estava amplo.

Este texto só foi publicado após autorização.

Quantos somos?

Este é um texto em grupo. Comecei a pós em Psicologia Junguiana, este ano, de 2020. Deveria ser presencial. Mas está sendo online, do jeito que dá.

Já teve erros na plataforma. E, no primeiro dia de aula, um colega decidiu criar o grupo do whatsapp da turma. Com professores incluídos ali. Seria, então, o “grupo oficial”, disseram alguns. Com todo o peso que o termo oficial carrega. Quase nos disseram: “aqui não pode conversar”, já que, sendo oficial, era um grupo para comunicados. E não relacionamentos. Mesmo sendo todos nós futuros junguianos. 

E aí tivemos um problema no grupo. Do whatsapp. De vez em quando tinha alguma coisa ali. Brigaram por causa de livros. Outra vez, sobre machismo. Mas quando aconteceu a briga sobre “não podemos agradecer” em que foi falado sobre gratidão é que não podíamos agradecer uns aos outros. Porque lotava o grupo com mais de 30 “obrigada”. 

Algumas pessoas sentiram raiva. Outras, sentiram razão. Outras, mandaram memes. E alguns de nós criamos outro grupo, chamado “O Outro”. Era, literalmente, o outro grupo. Em que podia tudo. Gratidão, bate-papo, tudo. Sobretudo, podia relacionar-se. Consigo. Com o outro. Conhecer as pessoas. E não apenas dividir uma sala de aula e uma pós graduação.

E a relação mesmo começou com ela, que se propôs, antes da aula, a fazermos o trabalho do professor juntas. Era um trabalho praquela aula. Não o trabalho da disciplina. Fizemos juntas, sozinhas, com câmera ligada. 

E esta mesma me chamou pra estudar. Vamos ler juntas o livro?, ela disse. Vamos! E começamos só nós. Éramos duas. Eu lia. Ela acompanhava. Câmera ligada. Pausa. Diálogo. E com isso, a gente foi se conhecendo.

Na aula seguinte, mencionamos em aula, na frente da turma, que estávamos estudando juntas. Era para tirar uma dúvida com o professor. Ela, então, quis fazer parte conosco. E aí, passamos a ser sempre três. Eu lia. Elas acompanhavam. Toda semana, no mesmo horário. 

Abrimos um terceiro grupo de whatsapp, nós três. Chamado “Estudos-nome-do-livro-do-Jung”. E aos poucos, foram chegando mais e mais. E os estudos, toda terça-feira às 16h30, se estenderam para quinta. E às vezes às sextas.

Hoje, somos doze. Os doze apóstolos. Os doze signos do Zodíaco. Os doze signos. Os doze meses do ano. Como ele bem disse. Os doze que se relacionam. E riem, e se emocionam. E se conhecem.

Hoje, em especial, uma voltou pro seleto grupo. E, com isso, somos treze. Mas não é doze mais uma. São treze. Inteiros. 

Dentro de nós, tem aquela que tem os netos. Tem aquela que faz as árvores de natais mais belas e que tem a voz doce e conta sobre a árvore da sua família. E tem aquele anão de jardim, como ela diz, e na verdade é um grande lenhador. Tem aquela que canta. E mesmo quando vem estar conosco lendo, canta. Tem a que fala de maternidade. Tem aquela que abre as cartas ao final dos estudos e nos abrilhanta com os seus oráculos, e deusas. Tem aquele que desaparece e quando vem, está cabeludo. 

Tem as psicólogas. As arteterapeutas. Tem a assistente social. E a médica. E a professora (de francês!). E aquela e aquele, que, independente da profissão que segue, está ali. Lendo, estudando, cantando. 

Tem a bruxa. Os umbandistas. A que não tem religião. Aquele que quer conhecer (“me leva lá?”). Tem aquele que fala dos seus Orixás. E as filhas de Iansã.

Tem a que tem netos. E as que tem filhos, grandes ou pequenos. E quase todas e todos têm os gatos, que passeiam, como iam pela Dra. Nise lá atrás, agora, pelas câmeras.

Tem aqueles e aquelas que vêm pouco. Quando dá. Nem sempre dá. E o grupo, do whatsapp, que era o grupo do grupo de estudos, e virou o grupo dos doze-treze. Não só pra falar de estudos. Mas para falar de nós. De cada um. 

E, falando de nós, a gente podia até não-estudar. Teve chope virtual no final da aula. Teve o dia que não queríamos chope e teve café. Com cocada e pão de queijo. Cada uma das suas casas. 

E hoje a gente ri. Se emociona. Pode ser grato. Dizer “obrigada” quantas vezes forem. E rimos. E brincamos. E choramos juntas. E compartilhamos nossos trabalhos, nossas vidas, nossas emoções, nossas religiões, nossas forças, fraquezas, fragilidades. Parece até terapia: é um lugar seguro. É um lugar em que não tem julgamento. Só emoção e troca.  

Os treze, hoje, tornaram-se bons amigos. O que antes, começou com duas amigas estudando, hoje somos treze que não só estudam, mas vivem, cada um na sua subjetividade, indivíduo. 

No grupo, tem sombra, ter persona, tem interpretação, tem individuação. E também tem sonho, mito, self, ego, anima e animus, energia (ah, a energia psíquica!). E tem muito, muito amor uns pelos outros. Cada um dos 13 por cada um dos 13 e por todos os treze. 

E, pensando bem, somos 14. Porque, simbolicamente, temos o Jung no centro de nós.

Quando o inconsciente pede…

Uma das coisas mais importantes dos seres humanos é o afeto. O quanto o afeto nos move, nos leva e nos traz. Não acredito em afetos positivos ou negativos. Tudo o que nos afeta, nos toca, nos move é igualmente importante.

Seja uma ira, uma raiva, um carinho, um afago, a empatia, uma emoção, qualquer que ela seja. Mais importante do que reprimir um afeto errado, é importante senti-lo. Não perdendo, claro, o respeito pelo outro, o cuidado e a empatia das relações.

Em épocas de pandemia, em que o contato físico está cada vez mais escasso, os afetos têm nos aflorado de outras formas (a mim também!). A gente conhece pessoas pela virtualidade. Algumas, nunca nos tocamos sequer.

E essa virtualidade, que, por um lado nos protege, também permite a ira, a raiva, a belicosidade, já que há a tela, a câmera, a distância, o wifi. “Ih, caiu”. Ficou offline e foi.

A distância, no entanto, não oculta nossos inconscientes, nossos atos falhos. Assim como a gente percebe a ira em uma pontuação, em uma escrita, em um olhar na câmera; a gente também percebe os atos falhos, e o “ops, desculpa, foi sem querer”.

E foi numa dessas situações que foi bem perceptível. A belicosidade e o desejo por afeto. Muitas vezes, quem grita é quem esconde um desejo de afeto sincero pelo outro.

E, durante um tempo, ouvimos gritos. Ouvimos “não”. Ouvimos “não agradeçam”. Sejam “frios”. Pois é assim que as relações para algumas pessoas são: burocráticas. Sem afeto. Na virtualidade, sem afeto? Não sei. Acho que ao contrário. Apesar da virtualidade, muito afeto!

E deste mesmo lugar em que vieram os gritos, vimos um ato falho. Vimos uma desculpa pelo erro descontextualizado. Só que o descontexto já ficou evidente. E aí veio uma enxurrada de afeto. Os agredidos viraram os olhos e entregaram afetos sinceros. E o burocratês se abriu para receber. E poder dizer “obrigada” onde antes existia frieza.

E aí o que aprendemos é que nosso, inconsciente grita por afeto. Mesmo quando há uma “capa” de belicosidade, há, também, um lado de dentro, bem no fundinho, de um desejo de amor. E é nos “sem querer” que esse desejo aparece.

E, aqui entre nós? Que maravilhoso por isso! Que, apesar da dor, da distância, do que há de bélico em nós, nosso inconsciente possa gritar ou sussurrar por amor.

Qual o lugar do atendimento psicológico?

Antes da pandemia, o lugar tinha endereço certo: o consultório. O número do prédio. O número da sala. Aquele sofá de sempre. Com a manta. O mais confortável possível para o paciente.

E aí…, pandemia! Isolamento social! Cada um em suas casas.

O consultório, está lá. Fechado. Vazio. Sem pacientes no sofá.

Os atendimentos, no entanto, não pararam. Pode ser via whatsapp vídeo chamada, via Skype, via Google Meet. A ferramenta, é aquela em que o paciente tem no celular ou computador. E que a gente possa ver-e-ouvir um ao outro.

Mas o local, aquele sofá acolhedor, agora, pode ser qualquer lugar. Literalmente. Já foi carro; já foi play do prédio; já foi no quartinho dos fundos, em casa. Já teve casos de ser na rua, na praça, sentados em um banco na rua.

Com isso tudo, a gente aprende que o lugar acolhedor não é o sofá. Ou a manta. Ou o endereço onde a gente recebe.

Mas o lugar acolhedor é o nosso olhar. A nossa escuta. É quando a gente “dá o play” na sessão e estamos ali, inteiros. Prontos para ouvir. Para acolher, ainda que sem braços, que seja no silêncio, um choro, uma angústia, uma questão mais difícil ou dolorida.

Hoje, atendo pacientes online, que chegaram com a pandemia (a gente não tinha atendimento antes). E que, apesar do distanciamento, o atendimento psicoterapêutico não tem nada distante. E menos ainda frio.

É com o isolamento social que a gente aprende que o lugar e o setting não é um espaço físico. Mas que o lugar é a nossa escuta. A nossa fala. O lugar (qualquer que seja ele) em que o paciente possa (não) falar e ser acolhido, ser dado sentido, caminhos, escutas e partilhas.

Gratidão a cada um que passou pelo “consultório”.

Gratidão aos colegas do grupo do whatsapp, que proporcionaram esta reflexão e possibilidade de texto.

Os óculos do outro

Outro dia eu estava saindo pra almoçar, sozinha.

A saída do prédio onde trabalho é bem ampla e tinha um homem olhando a rua e as pessoas passando. Mais alto que eu, ele usava óculos, cujas lentes eram largas, para os lados. Essas lentes pareciam armazenar os gestos alheios.

Por um segundo, eu também consegui olhar pelos óculos dele. Em uma fração minúscula de tempo tive uma mini perspectiva do que e como ele enxerga. Para mim, pareceu um pouco embaçado. Desfocado. Esfumaçava.

E fiquei andando e vindo pro almoço pensando.

Como seria a nossa perspectiva de olhar se a gente colocasse a lente dos outros? Se vestíssemos o olhar de alguém?

Claro. É algo que não será possível. Muito utópico e viajante.
Além de tudo, seria perturbador conseguir adentrar um local natural de defesa do ser humano, o pensamento.

O que o senso comum diz sobre empatia se parece um pouco com isso. Se colocar no lugar do outro. Sentir como o outro sente. Ser empático com e por.

Mas vestir os olhos já é mais complexo. É ter uma perspectiva não-minha. A via alternativa para recusar a vista é o desespero de se cegar como fez Édipo ao apreender a sua própria verdade, que tomou consciência real de que seus atos, voluntários ou involuntários, afetavam frontalmente a existência do outro. Somos mais interligados do que pensamos.

É fácil ter a perspectiva do cônjuge. Do filho. A gente até gostaria um pouco de colocar os olhos do filho na gente. É o igual. É o pretensamente criado à nossa imagem e semelhança. Esses seriam os olhos de um lugar seguro.

E o que dizer de vestir os olhos do diferente? Do malfeitor? Do assassino? Do pedófilo? Ou do depressivo? Como seria a experiência de despovoar a zona de conforto e tentar sangrar por novas experiências?

Chama um pouco a minha atenção às pessoas que usam óculos escuros. Eles não têm colírio. Penso nisso como uma blindagem, um insulfilm para carros. É a colocação dos próprios olhos no terreno do egoísmo. É privar do outro a chance de dividir o olhar de mundo.

São Longuinho e a luz interna

Hoje um amigo no trabalho estava procurando um parafuso perdido. Num chão de carpete cinza. Um parafuso. Que deve ser também cinza.

– Eu te ajudo a procurar – disse a ele. Sou devota de São Longuinho.

E agarrei o meu santinho, que fica sobre a mesa de trabalho.

Já tem tempo que eu soube que São Longuinho não foi um santo, mas uma crendice popular. De achar “loguinho” aquilo que se busca ou se perdeu.

Pra mim São Longuinho é um santo bem fofo (a imagem dele carrega uma lanterna!) e que ajuda a gente a buscar coisas perdidas. E eu, devota que sou, peço tudo a ele. E pago as promessas, com bem mais que três pulinhos.

Mas hoje, olhando praquela imagem daquele santo carregando a lanterna me veio o pensamento do quanto meu santo amigo se parece conosco, psicólogos.

Parte do nosso trabalho é encontrar, junto com o paciente, coisas ocultas.

Trazer coisas perdidas para a luz dos olhos.

Não somos nós, psicólogos, que buscamos. Muitas vezes, nem sabemos ainda o que é aquilo que se perdeu.

Perdeu o amor? A confiança? A alegria? O emprego? O marido? A direção da vida? A perspectiva? A luta? As suas questões internas? Perdeu a si mesmo? Onde?

E nós, Psis, tal como o santo amigo, temos a lanterna na mão. A gente só ajuda a iluminar os caminhos obscuros. A mergulhar na escuridão do inconsciente para juntos, acharmos onde está aquilo que se perdeu.

Então, minha gente, quero dizer a vocês. Tomem as suas lanternas internas, acendam a sua luz dentro da escuridão. Vocês vão achar coisas sensacionais dentro de si que pode ser que nem sabiam que estavam perdidas!

E o parafuso, do amigo do trabalho? Não achamos.

Mas isso não tem a menor importância. Era só um parafuso! Mais importante é a gente iluminar os caminhos. Os internos.

A história do Breno

Eu pego o Uber quase sempre no mesmo lugar. Mesmo destino. Sempre um motorista diferente.

Dada a hora e o dia cheio de trabalho e o meu cansaço, vou em silêncio, lendo.

Mas desta vez, conheci o Breno, o motorista de apenas 21 anos, que me levava para casa. (Pedi autorização a ele para escrever a sua história. Este não é seu nome real). “Que legal, doutora. Pode escrever sim senhora!”

Sempre peço permissão ao motorista para ligar a lanterna do celular, para ir lendo, ou fazendo alguma coisa ali atrás. Nunca sei se a lanterna vai atrapalhar a direção do motorista.

E foi assim que começou a nossa conversa. Breno achou que eu ia trabalhando ali, no carro. E eu disse que não, que estava lendo um livro emprestado pela Hanna, minha filha. Acabou que a leitura foi para a hora antes de dormir. A conversa estava melhor do que qualquer livro policial.

Breno tem 21 anos. É militar do Exército e trabalha de Uber nos finais de semana. Agora, final do ano, está trabalhando durante a semana para fazer um extra.

Mora na Maré. Na comunidade mesmo. Vivia com os avós, mas agora é casado. Sua esposa tem 22 anos e estuda Administração.

Quando soube que eu era Psicóloga, ele diz que seu sonho é estudar Psicologia, mas que, na vida, fez o caminho inverso. Foi trabalhar primeiro, para fazer um dinheiro e poder, depois, pagar a sua faculdade. Vai começar fazendo Ciências Contábeis (“Psicologia vai ficar para depois”). Vai começar ano que vem. Já pode investir na sua faculdade hoje.

Ele é aquele, da familia, o primeiro que fará uma graduação (e vai concluir, ele sabe). Quer sair da comunidade, quando acabar a sua graduação. Vender a sua casa e ir morar em Del Castilho, num apartamento, com a sua esposa. E dar uma vida melhor para os filhos.

– Já tem filhos, Breno?

– Não, mas quando eu tiver.

Seu avô, que também é militar aposentado, comprou um terreno e vão dividir. Uma casa para Breno e a esposa. Outra casa pros avós. Estão construindo ainda. Vai ter piscina pras crianças todas (os seus filhos, que ainda virão).

Ah, e quando tiver acabado a graduação, e estiver pagando o seu apartamento de Del Castilho, vai pagar a faculdade da mãe, de Direito. Ela é a mulher mais inteligente que ele já conheceu. Hoje em dia, é caixa de uma farmácia na Tijuca e não pôde realizar o seu sonho (de ser Advogada), pois teve os filhos cedo. Ele, aos 21, é o mais velho de 4 irmãos.

Ele vai estudar, vai dar uma vida melhor para seus filhos. E, quando acabar, vai se mudar com a esposa pra fora da comunidade, e ajudar a realizar o sonho da mãe.

Quando a mãe se formar em Direito, vai poder sair de trás do caixa, ter um emprego bom, e poder pagar a faculdade das suas irmãs, que estarão crescidas.

E ele, apesar de morar na comunidade e lá ser perigoso, ele gosta. Mas quer uma vida melhor, sem violência, para seus filhos. Por isso vai pro apartamento. Todo mundo diz que apartamento é ruim, que não tem quintal. Mas a casa de Araruama está aí pra isso. Vai ter a piscina pra todo mundo brincar! Final de semana vai todo mundo pra Araruama. As irmãs, as crianças, a família toda.

Eles são muito unidos. Tem um churrasco por mês na lage do avô. Um dá a carne, outro a linguiça, outro a cerveja (ele não bebe, mas tem gente que bebe e gosta, né?), outro dá o sorvete, e assim a gente vai se ajudando e comemorando o estar junto uns com os outros.

Quero dizer que saí do carro profundamente emocionada com a história do Breno.

Quantos Brenos cruzam por nossos caminhos?
Quantos Brenos dirigem nossos Ubers?
Quantas mães de Brenos são caixas de farmácias que compramos remédios?
E sequer paramos para ouvir as suas histórias?
Ficamos plugados nos nossos stories-de-cada-dia, ou nos nossos livros e perdemos o olhar, a troca, o aprendizado com o outro?

Breno, obrigada por compartilhar sua história comigo. Como eu disse que ia escrever sobre você, eis aqui. E ainda digo: quero conhecer seus filhos, e te dar os parabéns pela formatura em Ciências Contábeis. Apesar de ter dialogado pouco mais de quinze minutos com você, você me inspira nos seus objetivos, luta e garra.

E espero que isso se repita com as pessoas que cruzarem seu caminho!

O que é o sofrimento?

O sofrimento pode ser físico, emocional ou espiritual. E grande parte dos sofrimentos (dos últimos 2.000 anos!) poderiam ter sido evitados se o materialismo não tivesse imperado no ser humano e no Ocidente a ponto de verdades milenares serem tratadas de forma preconceituosa como crendice ou bruxaria. A gente sofre porque sente. E sente muita coisa. O tempo todo.

O sofrimento é uma consequência de muitas causas esquecidas ocorridas em algum momento da nossa vida. É quase um esquecer de si mesmo. E isso pode gerar, no ser humano, desequilíbrios emocionais e espirituais e, por consequências, manifestações orgânicas, como as somatizações no corpo (e nas emoções).

O sofrimento é um ensinamento, uma pedagogia divina e humana, para a evolução de todos nós. Algo como uma reação de justiça para que possamos, com isso, o aprendizado a partir dele. Causa dor / sofrimento para parar, olhar, e aprender com ele,. A partir da consciência e do trabalho terapêutico, é possível olhar para o sofrimento, cuidar e evoluir, transmutar.

(Estou fazendo um curso de Florais de Bach e este foi um dos exercícios do Módulo I, que escrevi e me fez pensar para vir aqui trazer para vocês…)