Textos

São Longuinho e a luz interna

Hoje um amigo no trabalho estava procurando um parafuso perdido. Num chão de carpete cinza. Um parafuso. Que deve ser também cinza.

– Eu te ajudo a procurar – disse a ele. Sou devota de São Longuinho.

E agarrei o meu santinho, que fica sobre a mesa de trabalho.

Já tem tempo que eu soube que São Longuinho não foi um santo, mas uma crendice popular. De achar “loguinho” aquilo que se busca ou se perdeu.

Pra mim São Longuinho é um santo bem fofo (a imagem dele carrega uma lanterna!) e que ajuda a gente a buscar coisas perdidas. E eu, devota que sou, peço tudo a ele. E pago as promessas, com bem mais que três pulinhos.

Mas hoje, olhando praquela imagem daquele santo carregando a lanterna me veio o pensamento do quanto meu santo amigo se parece conosco, psicólogos.

Parte do nosso trabalho é encontrar, junto com o paciente, coisas ocultas.

Trazer coisas perdidas para a luz dos olhos.

Não somos nós, psicólogos, que buscamos. Muitas vezes, nem sabemos ainda o que é aquilo que se perdeu.

Perdeu o amor? A confiança? A alegria? O emprego? O marido? A direção da vida? A perspectiva? A luta? As suas questões internas? Perdeu a si mesmo? Onde?

E nós, Psis, tal como o santo amigo, temos a lanterna na mão. A gente só ajuda a iluminar os caminhos obscuros. A mergulhar na escuridão do inconsciente para juntos, acharmos onde está aquilo que se perdeu.

Então, minha gente, quero dizer a vocês. Tomem as suas lanternas internas, acendam a sua luz dentro da escuridão. Vocês vão achar coisas sensacionais dentro de si que pode ser que nem sabiam que estavam perdidas!

E o parafuso, do amigo do trabalho? Não achamos.

Mas isso não tem a menor importância. Era só um parafuso! Mais importante é a gente iluminar os caminhos. Os internos.

A história do Breno

Eu pego o Uber quase sempre no mesmo lugar. Mesmo destino. Sempre um motorista diferente.

Dada a hora e o dia cheio de trabalho e o meu cansaço, vou em silêncio, lendo.

Mas desta vez, conheci o Breno, o motorista de apenas 21 anos, que me levava para casa. (Pedi autorização a ele para escrever a sua história. Este não é seu nome real). “Que legal, doutora. Pode escrever sim senhora!”

Sempre peço permissão ao motorista para ligar a lanterna do celular, para ir lendo, ou fazendo alguma coisa ali atrás. Nunca sei se a lanterna vai atrapalhar a direção do motorista.

E foi assim que começou a nossa conversa. Breno achou que eu ia trabalhando ali, no carro. E eu disse que não, que estava lendo um livro emprestado pela Hanna, minha filha. Acabou que a leitura foi para a hora antes de dormir. A conversa estava melhor do que qualquer livro policial.

Breno tem 21 anos. É militar do Exército e trabalha de Uber nos finais de semana. Agora, final do ano, está trabalhando durante a semana para fazer um extra.

Mora na Maré. Na comunidade mesmo. Vivia com os avós, mas agora é casado. Sua esposa tem 22 anos e estuda Administração.

Quando soube que eu era Psicóloga, ele diz que seu sonho é estudar Psicologia, mas que, na vida, fez o caminho inverso. Foi trabalhar primeiro, para fazer um dinheiro e poder, depois, pagar a sua faculdade. Vai começar fazendo Ciências Contábeis (“Psicologia vai ficar para depois”). Vai começar ano que vem. Já pode investir na sua faculdade hoje.

Ele é aquele, da familia, o primeiro que fará uma graduação (e vai concluir, ele sabe). Quer sair da comunidade, quando acabar a sua graduação. Vender a sua casa e ir morar em Del Castilho, num apartamento, com a sua esposa. E dar uma vida melhor para os filhos.

– Já tem filhos, Breno?

– Não, mas quando eu tiver.

Seu avô, que também é militar aposentado, comprou um terreno e vão dividir. Uma casa para Breno e a esposa. Outra casa pros avós. Estão construindo ainda. Vai ter piscina pras crianças todas (os seus filhos, que ainda virão).

Ah, e quando tiver acabado a graduação, e estiver pagando o seu apartamento de Del Castilho, vai pagar a faculdade da mãe, de Direito. Ela é a mulher mais inteligente que ele já conheceu. Hoje em dia, é caixa de uma farmácia na Tijuca e não pôde realizar o seu sonho (de ser Advogada), pois teve os filhos cedo. Ele, aos 21, é o mais velho de 4 irmãos.

Ele vai estudar, vai dar uma vida melhor para seus filhos. E, quando acabar, vai se mudar com a esposa pra fora da comunidade, e ajudar a realizar o sonho da mãe.

Quando a mãe se formar em Direito, vai poder sair de trás do caixa, ter um emprego bom, e poder pagar a faculdade das suas irmãs, que estarão crescidas.

E ele, apesar de morar na comunidade e lá ser perigoso, ele gosta. Mas quer uma vida melhor, sem violência, para seus filhos. Por isso vai pro apartamento. Todo mundo diz que apartamento é ruim, que não tem quintal. Mas a casa de Araruama está aí pra isso. Vai ter a piscina pra todo mundo brincar! Final de semana vai todo mundo pra Araruama. As irmãs, as crianças, a família toda.

Eles são muito unidos. Tem um churrasco por mês na lage do avô. Um dá a carne, outro a linguiça, outro a cerveja (ele não bebe, mas tem gente que bebe e gosta, né?), outro dá o sorvete, e assim a gente vai se ajudando e comemorando o estar junto uns com os outros.

Quero dizer que saí do carro profundamente emocionada com a história do Breno.

Quantos Brenos cruzam por nossos caminhos?
Quantos Brenos dirigem nossos Ubers?
Quantas mães de Brenos são caixas de farmácias que compramos remédios?
E sequer paramos para ouvir as suas histórias?
Ficamos plugados nos nossos stories-de-cada-dia, ou nos nossos livros e perdemos o olhar, a troca, o aprendizado com o outro?

Breno, obrigada por compartilhar sua história comigo. Como eu disse que ia escrever sobre você, eis aqui. E ainda digo: quero conhecer seus filhos, e te dar os parabéns pela formatura em Ciências Contábeis. Apesar de ter dialogado pouco mais de quinze minutos com você, você me inspira nos seus objetivos, luta e garra.

E espero que isso se repita com as pessoas que cruzarem seu caminho!

O que é o sofrimento?

O sofrimento pode ser físico, emocional ou espiritual. E grande parte dos sofrimentos (dos últimos 2.000 anos!) poderiam ter sido evitados se o materialismo não tivesse imperado no ser humano e no Ocidente a ponto de verdades milenares serem tratadas de forma preconceituosa como crendice ou bruxaria. A gente sofre porque sente. E sente muita coisa. O tempo todo.

O sofrimento é uma consequência de muitas causas esquecidas ocorridas em algum momento da nossa vida. É quase um esquecer de si mesmo. E isso pode gerar, no ser humano, desequilíbrios emocionais e espirituais e, por consequências, manifestações orgânicas, como as somatizações no corpo (e nas emoções).

O sofrimento é um ensinamento, uma pedagogia divina e humana, para a evolução de todos nós. Algo como uma reação de justiça para que possamos, com isso, o aprendizado a partir dele. Causa dor / sofrimento para parar, olhar, e aprender com ele,. A partir da consciência e do trabalho terapêutico, é possível olhar para o sofrimento, cuidar e evoluir, transmutar.

(Estou fazendo um curso de Florais de Bach e este foi um dos exercícios do Módulo I, que escrevi e me fez pensar para vir aqui trazer para vocês…)

A pressa ou a gentileza?

Para quem está me lendo pela primeira vez, explico.

Eu ando na rua (no transporte público, principalmente), observando pessoas. Quase todo o tempo.

Hoje, estava no ônibus usual de sempre. Eram 6:40 da manhã, indo pro trabalho, e vi uma cena. Desta vez, no ponto de ônibus. Durou poucos segundos.

Uma criança, uma menina, uniformizada e de mochila. Por volta dos seus sete anos. Ia pegar o ônibus atrás do meu.

No mesmo ponto de ônibus, uma mulher (indo para o trabalho? provavelmente atrasada?) ia pegar o ônibus em que eu estava.

Uma correu para um lado. Outra correu para o outro. E a mulher deu um encontrão na criança. Um esbarrão que quase a jogou longe. Ela – a menina – quase se desequilibrou e caiu. E ambas continuaram correndo – em sentidos opostos – em direção aos seus transportes. Às suas vidas.

E na hora pensei: quanto vale o tempo? A pressa? A gentileza?

Não vi um olhar – sobretudo da mulher – para com a criança. Ou um sorriso. Ou um pedido de desculpas. Nada.

O objetivo era pegar o ônibus. Ou algum outro (não sei). Parecia atrasada (pela pressa).

E entendo que não precisamos ser psicólogo(a)s para olhar para o outro. Para esta cena.

O quanto da nossa pressa (e do nosso tempo, e dos nossos compromissos) fecha o nosso olhar para com o outro? O quanto a nossa vida corrida, atribulada, nos deixa menos gentis (e educados)?

Ao mesmo tempo, lembro de um vídeo compartilhado no Facebook (não sei de quando é, mas o assisti ontem) em que uma mulher pára o seu carro no meio da rua reclamando das agressões que sofre do marido. Alguém gravou este vídeo. Ele estava na rede social. O vídeo tinha a duração de cinco minutos. A mulher esbravejava que o companheiro a estava agredindo. Que ela corria risco de vida (e esta mulher morreu, vítima de violência muito brutal). No tempo que durou o vídeo, não vi uma pessoa sequer parando e perguntando “oi?”.

Em época de compartilhamento, de likes, de seguidores, de insta, stories, vale mais o vídeo compartilhado (que vai gerar likes e seguidores e visibilidade) do que o anonimato do olhar e da ajuda?

Não precisa ser da área de humanas, de nenhuma profissão X ou Y para ter um olhar empático ou um olhar atento para quem cruza pelos nossos caminhos.

Em época de Setembro Amarelo, é preciso mais olho-no-olho. É preciso sair da rede social, da virtualidade, dos seus smartphones para observar mais o outro e nós mesmos. Um olhar atento para o outro é aquilo que pode nos ensinar a crescer.

[Devo dizer que na observação desta manhã, eu já fui esta mulher (e ainda sou). Na minha pressa, excluo meu olhar para quem está no caminho. E também já fui (sou) esta criança que, algumas vezes, na minha lentidão e no meu tempo mais despretencioso, já levei encontrões de outros e atrapalhei pressas alheias, e fui embora para o meu caminho sem olhar para trás].

O mais importante não é ser uma ou ser outra. Este aqui não tem gabarito. Não têm certos e errados.

O mais importante – e essencial – é o olhar para o outro e, sobretudo, para si, e ver de que forma podemos construir um nós-mesmos-melhor.

Sobre o distanciamento e aproximação do outro

Eu e minhas histórias do ônibus. São nessas horas que vejo a humanidade, a sociedade, e as pequenas “psicologias” e afetos do dia-a-dia.

Era um sábado e eu estava voltando do Centro do Rio para casa.

Com o ônibus vazio, sentei logo à frente, e peguei o livro na mochila. A senhora atrás de mim cantava e eu preferi mudar de lugar para ir para um lugar mais silencioso possível e ler sem interrupção.

A primeira pergunta é: até onde vai a nossa (in)tolerância com o barulho das pessoas em volta da gente? A senhora podia estar cantando por diversos motivos. Mas, o principal deles é: não tinha a ver comigo. Mas acaba que eu faço ter a ver comigo e vou para longe.

E, sentada longe da velhinha cantante, consegui terminar o livro que estava lendo. E eis que uma senhora – outra senhora – senta ao meu lado. Era muito, muito magrinha e pequenininha. Não a vi chegando, até ela se sentar.

Eu estava na janela e ela sentou no corredor, e sentou mais na beirada possível, deixando um espaço invisível entre nós duas.

– Com licença, posso me sentar aqui ao seu lado?

– Pode sim. À vontade.

E me vi dando um sorriso tímido.

E eu percebi a delicadeza da velhinha tão pequenininha. E o sorriso dela, tão tímido quanto o meu.

Tive vontade de envolvê-la nos braços, e deixar ela mais pertinho de mim. Aquele espaço entre nós duas era maior do que eu podia suportar. E eu nem me lembrava mais da velhinha cantante lá da frente.

A minha velhinha (sim, ela já passou a ser minha), tirou uma garrafa d’água de dentro da sua bolsa. Tomou um gole e…

– Você aceita um pouco da minha água?

– Não, muito obrigada.

E o distanciamento ia se estreitando e eu já tinha vontade de não mais ficar no meu silêncio (egoísta) do meu livro e de poder dialogar com a minha velhinha, que, agora, já estávamos bem próximas, apesar do espaço vazio ainda entre nós, no banco do ônibus.

E me lembrei que mudei de lugar para a velhinha cantante não incomodar a minha leitura.

Face o oferecimento da água, eu já estava tão tão encantada pela minha velhinha que não iria adiantar mais ler, mesmo nós duas em silêncio, uma ao lado da outra.

Fechei o livro.

– Desculpe! Estou atrapalhando a sua leitura.

– Não… é um prazer.

E, se querer, a minha velhinha encostou parte do seu pé no meu pé. Numa das curvas do ônibus.

E, apesar do diálogo, pela primeira vez, nos tocamos.

– Me desculpe! – ela quase gritou.

E beijou o meu ombro. De novo: beijou o meu ombro!

Vejam só. Ela encostou em mim. Se desculpou pelo encosto. E me beijou. Não é maravilhoso isso? (O quanto de olhar e de afeto deixamos passar no ônibus? Nas pessoas estranhas, desconhecidas, velhinhas?) Eu apenas sorri e não a beijei de volta. Não sei bem por quê. Talvez por timidez. Apesar do meu desejo…

Saltamos no mesmo ponto e, ela se despediu de mim com um beijo estalado de longe. Eu me aproximei e, desta vez, nos abraçamos.

– Obrigada! – eu disse.

– Desculpe! – ela dizia.

E eu ficava me perguntando: desculpe pelo quê? Por ter sido gentil de oferecer a água? Pelo distanciamento ao se sentar ao meu lado e pelo beijinho no meu ombro? Por ter interrompido a minha leitura? (O nosso diálogo e o beijo foram muito melhores e mais enriquecedores do que qualquer leitura, minha velhinha…)

E penso no quanto deixamos as pessoas passarem pelos nossos dias. Pelos transportes públicos. Pela vida. O quanto de olhar devemos ter para com o outro e, também, sobretudo, para com nós mesmos? O olhar para fora também é um olhar para dentro. Ver o outro é me ver também.

Pensar nesse distanciamento – aproximação me vejo como, muitas vezes, estou distante de mim, e preciso estar mais próxima de mim. Ou o quanto preciso me distanciar do livro e me aproximar de quem senta ao meu lado. Ou de não me incomodar com os ruídos alheios e tornar a percepção mais aguçada para que o som do outro me invada. Me ensine. Para que eu receba e eu possa, também, dar beijos e águas e afetos.

É melhor o contato do que a comida

Hoje, na hora do almoço, eu tinha monte de coisas para resolver com o Marido. Quase sempre almoçamos juntos. Sim, apesar de sermos casados, e de nos vermos todos os dias, gostamos também de, no meio do expediente, partilharmos o alimento.

E aí, pelo pouco tempo, fomos fazer um lanche na Parmê, ali na Rua do Rosário.

Fizemos o nosso pedido e pouco depois entrou um menino, de por volta de seus oito, ou dez anos, pedindo um prato de comida ao Marido. Era engraxate, pelo Centro do Rio. Carregava aquele caixote de madeira, embaixo do braço.

– Sim, eu pago, ele disse. Escolhe o seu prato.

Era um painel grande, com diversos cardápios, com fotos e tudo.

O menino escolheu qual queria.

– Arroz, feijão, farofa, batata e carne. Quero este, ele disse.

O Marido foi, pagou, e entregou a ficha para o menino.

– Sua senha é a 05. Fica atento.

E fomos comer – eu e Marido – e o menino aguardando a sua senha ser chamada.

Enquanto ele esperava, percebi que outros dois meninos – também engraxates – aguardavam sentados no meio-fio, do outro lado da calçada.

Chegou o prato do menino, ele mesmo foi ao balcão buscar o prato, a bebida, e se sentou à mesa da Parmê, para comer sua comida.
Fez um sinal para os amigos do outro lado da calçada.

Os amigos foram embora. Desviaram o caminho e seguiram o caminho deles. Distante do menino que, agora, se alimentava.

Este, que se alimentava, deixou o prato – cheio de comida – e sumiu. Foi atrás dos outros dois.

Muitas pessoas na Parmê ficaram “chocadas”. E tenho certeza (porque eu mesma pensei) que pensaram: ingrato! O rapaz deu o prato de comida, a bebida, e agora ele deu uma garfada e foi embora! Por isso que não adianta, bla bla bla!

Segundos – que poderiam ter durado minutos, voltam os três meninos. O menor, que estava comendo até então, deu o seu lugar para um dos dois amigos. Este se sentou no lugar anteriormente do menino, e comeu a comida do prato dele.

Depois, veio o terceiro, e comeu um pouco também.

E os três revezavam-se pelo mesmo lugar, pelo mesmo prato de comida, pela mesma bebida.

O que fica muito claro para mim é: o menino tinha a comida, mas perdeu os amigos. Foi atrás deles. O afeto vale mais do que o alimento.

E, ele não queria e não podia se alimentar sozinho. A comida era compartilhada. Não na mesma mesa. Os três sentados juntos. Mas cada um sentado de uma vez. Comendo do mesmo garfo, da mesma faca, do mesmo copo, do mesmo prato, da mesma comida.

O comer é solitário, mas, ao mesmo tempo, é coletivo, compartilhado.

Porque, ainda que haja fome, a maior das fomes é a de afeto. É a de solidariedade. E, esta, eles estavam partilhando. E, por que partilhavam, estavam saciados.

Gentileza gera gentileza

Este texto pode parecer piegas, mas vou contar três cenas bem corriqueiras para exemplificar o que quero dizer, no final.

Cena 1.

Eu estava entrando no ônibus, na quinta-feira (sim, tem sempre uma observação de fatos cotidianos no ônibus), daqueles sem cobrador, em que tem duas roletas.

Eu passei na roleta, com o meu bilhete único.

Atrás de mim, uma senhora passou com o bilhete dela e o seu bilhete caiu num lugar de difícil acesso. Ela precisaria se abaixar, se esticar, e ficar numa posição (com o ônibus já em movimento) difícil. Eu me ofereci para pegar o bilhete para ela. Precisava deixar as minhas coisas (estou sempre carregada!) num canto, num banco, para catar o bilhete dela. Ela agradeceu e pronto.

Cena 2.

No sábado, eu peguei outro ônibus. Mesma situação. Só que agora comigo. Meu bilhete caiu lá atrás. Num lugar que pensei: “e agora?”. Parecia impossível. O ônibus fazia curvas. Eu carregada. Antes de me abaixar, pensei em qual deveria ser o movimento exato para buscar o bilhete único num lugar de difícil acesso.

Um rapaz apareceu (estava sentado em um local no ônibus que eu não vi) e não dialogou comigo. Apesar pegou o meu bilhete (ele era magro e alto e tinha uma flexibilidade e um braço comprido que conseguiu pegar), e me entregou com um sorriso belíssimo. Não trocamos uma única palavra, além do “muito obrigada”.

Na hora, me lembrei do gentileza gera gentileza, lá do profeta.

Cena 3.

No âmbito profissional, um homem (chamarei de Wilson) foi desrespeitosamente agressivo com outro (que chamarei de Hélio). Dois profissionais, mesma empresa. Hélio cometeu um erro, sem querer. Wilson foi impactado pelo erro de Hélio e foi super agressivo com ele. Algo desmedido, desrespeitoso, sem educação.

Isso tudo foi com uma certa platéia. Ficou bem feio para Wilson. Hélio ficou irritado, com razão. Ninguém merece ser tratado daquela forma. Não há justificativa plausível.

Minutos depois o celular de Hélio tocou. Wilson já tinha ido embora. Do outro lado da linha, uma operadora de telemarketing, que é uma profissão já estigmatizada por um monte de adjetivos negativos.

E o Hélio – que acabou de ser agredido pelo Wilson – foi super agressivo com a operadora de telemarketing. “Estou estressado. Não me ligue. Não quero. Você está sendo isso, aquilo, aquilo outro!” e bateu o telefone. Além de desligar o telefone, bateu com ele sobre a mesa. Literalmente.

E lembrei: é mesmo, gentileza gera gentileza.

O que sobra disso tudo, minha gente?

O que quer que façam conosco, ou o que falem conosco, ou como nos tratem, não deve nos influenciar no tratamento para com o outro.

A ética e a gentileza e a educação devem ser inabaláveis.

Se você – psicólogo – teve um dia ruim no trânsito, não significa que deve tratar o paciente da forma X ou Y porque o motorista do Uber não foi como queria.

Ou se você – vendedor – perdeu uma venda, ou foi desrespeitado pelo cliente, que atendeu, o próximo não deve “pagar o pato”.

Ou se você – qualquer que seja a sua profissão: taxista, vendedor, telemarketing, professor, copeira, advogado, psicólogo – deve lembrar que o outro – o próximo passageiro, a próxima turma, o próximo cliente, ou paciente – não deve ser tratado da forma X ou Y por causa da forma que alguém tratou você. A ética, a gentileza e o respeito devem ser a base da nossa conduta pessoal e profissional.

A forma como as pessoas nos tratam falam delas mesmas. Não deve nortear a nossa ação, conduta.

O que deve ser repetido e passado adiante é o olhar gentil ao outro. Afinal de contas, é isso mesmo: gentileza gera gentileza. E, parafraseando a piada, seria ótimo que a gentileza educasse a “gente lesa”.

O motorista não sabia o caminho, e a metáfora com a vida real

Todos os dias, ao ir para o trabalho, sempre no mesmo horário, sempre o mesmo ônibus, quase sempre o mesmo motorista.

Na última quarta-feira, foi um pouco diferente. Eram 07:15h. Horário de sempre. Ônibus de sempre.

O motorista, no entanto, não lhe pareceu familiar. O ônibus estava quase cheio. E ela ouviu o motorista dizer:

– Desculpa, gente. Eu sou novo nesta linha.

E, antes de virar a cada curva, a entrar em casa esquina, ele perguntava: “é aqui?”, “é este o caminho?”.

Tirando as questões organizacionais de lado, de colocar um motorista para conduzir um ônibus sem conhecer previamente o trajeto, ou treinamento… todos os passageiros do ônibus ajudavam o novato.

– Sim! É na próxima esquina! Vira ali à direita!

E o motorista, continuava perguntando, a cada rua que precisava entrar. E os passageiros, ajudavam-no, dando o caminho correto.

Por outro lado, por estar conduzindo, o motorista perguntava sem olhar para trás, para os passageiros que o conduziam. E tinha uma direção segura. E os passageiros, por outro lado, não tinham apreensão, nem medo de o trajeto ser desviado sem querer.

E fiquei pensando em o quanto esta cena reproduz a metáfora da vida…

O quanto guiamos a nossa vida sem, muitas vezes, saber o caminho? Qual o caminho certo e o errado?

E o quanto precisamos da ajuda de pessoas que não podemos ver? Que precisamos ir sem olhar para trás? Por outro lado, também, quem está atrás, também nos guia.

Sejam as pessoas do nosso passado (que ficaram para trás por algum motivo) que nos ensinam sobre quais caminhos devemos seguir. Sejam as pessoas dentro de nós (dentro do ônibus): aquelas pessoas que já fomos. Sobre o nosso próprio passado, sobre aquele ser que cada um de nós já foi e que não queremos olhar para trás, mas que nos ensina a que trajetória seguir.

E, ainda assim, na vida real, quando aquele monte de gente desceu comigo, o motorista foi agradecendo a todos que desciam e tinham ajudado ele até ali.

Uma pessoa se aventurou:

– Agora o senhor segue em frente e pega ali, ó, aquela rua…

– Obrigada, moça. Mas daqui eu já sei. Daqui eu já conheço o caminho.

Deve ser porque agora ele estava sozinho no ônibus. Inteiro dele mesmo. E, agora, o caminho já era conhecido.

Amamentar ou selfie?

Outro dia eu estava vendo no Instagram (uma rede social que ganhou o meu coração ultimamente, sobretudo com os stories), e me chamou a atenção da foto de uma moça amamentando o bebê recém-nascido e tirando um selfie. Como pede o Instagram, colocou uma série de filtros (ela mesma de óculos escuros) e uma hashtag na foto.

Eu sou mãe de uma menina de 12 anos, mas que não nasceu de mim. Não a amamentei, portanto.

Acho que a mulher deve, sim, amamentar em qualquer lugar. E que deve ser dado o direito de ela alimentar o seu neném e sem nenhum pudor de seios de fora ou nada disso. Não deveríamos cobrir os seios com paninho ou esconder com a roupa, quando o olhar do promíscuo ou do erótico, ou do libertinoso, é do outro. Não há nada de erótico a amamentação. Há um profundo amor. Uma das primeiras conexões mãe-bebê.

E aí eu quero chegar no ponto da amamentação e do selfie na mesma foto.

O momento do amamentar é uma das primeiras conexões mãe-bebê (quando o bebê está nascido). E, neste caso, eu imagino a troca de olhares, de carinhos, de chamego. De palavras e de silêncios. De poder estar ali, totalmente conectados um ao outro. E estes momentos podem acontecer até na fila do banco (se é lá que a mãe está amamentando). Ou pode acontecer na penumbra do quartinho do neném. Em qualquer lugar é qualquer lugar. Onde a mãe e o bebê estiverem. E, tendo fome, ou sendo o momento, é o momento.

E, de quem quer que sejam os olhares, o olhar da mãe é / deveria ser para o seu bebê. Se conectar ali, naquele movimento.

E, quando este momento “pede” uma selfie. Ou quando esta mãe pensa na selfie deste momento, me choca um pouco. Mesmo que seja uma foto-política para que seja promovido o aleitamento materno em qualquer local, sem restrições. Ainda assim. Penso que pode se fazer a foto política sim. Deve ser feito. Mas eu entendo que selfie, muitas vezes, é “preciso ser vista / curtida neste momento”, ou um desejo de auto-exposição desmedida.

E, não entendo que este momento – a amamentação – deva ser um movimento para fora; mas um movimento para fora – para dentro, também. Algo muito, muito íntimo. Que pode ser registrado (e guardado).

Mas que o registro – e as curtidas, ou os novos seguidores – pode desmembrar este movimento tão dentro, para algo tão fora que jamais vai dimensionar o tamanho do amor e do acolhimento que deve haver neste momento. E aí, o que é poético, o que é íntimo, o que é afetivo acaba se perdendo.

Que possam existir, portanto, bebês fofos em nossas timelines. Mas que possam existir também momentos íntimos (que imaginamos) e que sequer vejamos, em lente nenhuma, em rede social alguma. Que a conexão mãe-bebê possa existir dentro dos seus corações, e fora das lentes de cada um de nós, mesmo que seja para serem curtidas.

Sobre a curiosidade infantil

7:20h da manhã e eu estava no ônibus, indo trabalhar. É o ônibus, em geral, o meu melhor lugar de observação.

Sentei naquele banco lá do final do ônibus, na janela. Lá, a janela abre bem grande e consigo sentir o vento, no trajeto, logo cedo, me deixando bem descabelada.

E, o livro, sempre comigo. Estou lendo “Anjo noturno”, de Sérgio Santana. Um livro de narrativas muito bom.

No meio do caminho, entram crianças de escolas públicas que tem por ali. Elas estão indo para a escola, uniformizadas, e com as suas mochilas.

Logo ao meu lado senta uma menina de por volta dos seus 05 anos. Ao lado dela, o irmão, com idade também indefinida – pode ser mais novo ou mais velho. Sem pais ou alguém mais velho ao lado.

Ela senta com a mochila nas costas, e começa a me observar.

E eu adoro a curiosidade ousada das crianças. Ela me olhava sem cerimônias. Olhava no meu rosto, a alguns centímetros. Olhava o que eu estava lendo e tentava, de alguma forma, ler junto. Olhava por baixo, para ver o que eu estava vestindo nas pernas e calçando. E assim fomos a viagem.

Eu não olhava para ela, mas conseguia perceber o seu olhar. Eu mesma não ousei. Tive vontade de perguntar seu nome, de interagir com ela, de mostrar o livro que eu estava lendo.

Mas eu fiquei olhando as páginas do livro, e não conseguia mais ler uma palavra, observando (com os sentidos) o olhar daquela menina. Eu mesma interpreto o olhar dela. Não sei o que ela pensava ou sentia.

Mas eu penso que perdemos um lado criança tão primordial: a coragem de olhar. A coragem de olhar sem cerimônias. Aquele olhar que é sem julgamento, que é apenas um olhar para o outro, um interesse genuíno. O que o outro lê? O que o outro veste? Deixa eu ver a cara do outro.

Foi isso que perdemos: a ausência de julgamento, o olhar para fora e para dentro, a curiosidade, a bisbilhotice infantil pela vida alheia.

Obrigada, menina, por ter me olhado e, ainda que eu não tenha te devolvido o olhar, me fez pensar sobre os olhares que devo ter daqui para frente. Para dentro e para fora.